Odisseia no espaço

telescópio Hubble completa 30 anos de lançamento

Três décadas de exploração já revelaram segredos do espaço em imagens impressionantes

Texto: Brenda Luísa Dalcero e Gabriela Bento Alves

O telescópio Hubble foi colocado no espaço pelo ônibus espacial Discovery

Telescópio Hubble é colocado no espaço pelo Discovery (Foto: NASA)

No último dia 26 de abril, o telescópio Hubble da NASA completou 30 anos em funcionamento. Desde o início da humanidade, tudo que foi descoberto sobre o universo aconteceu por meio da observação a olho nu. Foi a partir do telescópio de Galileu Galilei, por volta do ano 1610, que tudo mudou. Assim, foi possível conhecer o universo por outra perspectiva. Foi possível saber que Saturno tem anéis, Júpiter tem luas, e que a nuvem que atravessa a Via Láctea não é uma nuvem. Trata-se, na verdade, de um aglomerado de estrelas. Com o passar dos anos, o conhecimento científico sofreu revoluções que mudaram, para sempre, nossa visão do universo.

Neste contexto, o aniversário de 30 anos do telescópio Hubble marca mais uma revolução na descoberta do desconhecido. O Hubble decolou em 24 de abril de 1990, a bordo do ônibus espacial Discovery, junto a cinco astronautas. Um dia depois, o telescópio entrou em órbita e, desde então, vêm fornecendo imagens impressionantes. Até 2020, o Hubble produziu mais de 1,4 milhão de observações. Seus dados já foram utilizados em mais de 17 mil publicações científicas.

A professora Thaísa Bergmann, chefe do grupo de pesquisa em Astrofísica da UFRGS, explica que a longa vida do Hubble pode ser atribuída a cinco missões de manutenção, que ocorreram entre 1993 e 2009. Nessas missões, os astronautas atualizaram o telescópio com instrumentos avançados e fizeram reparos no telescópio em órbita. “Logo após o lançamento, todos ficaram preocupados porque ele apresentou um problema na curvatura do espelho. O dano era mínimo, mas que já prejudicava um pouco a qualidade de imagem. Felizmente, o Hubble foi feito para poder ser acessado via ônibus espaciais para reparos”, destaca a professora. Portanto, para a NASA, a expectativa é que o Hubble continue no espaço durante a década de 2020.

A CORRIDA ESPACIAL NO SÉCULO XXI TEM NOVO CENÁRIO

Para o professor Odilon Giovanni Junior, do curso de Física da UCS,  o lançamento do Hubble iniciou uma revolução na astronomia. “Ele foi desenvolvido como uma parceria entre o programa espacial dos EUA e a AEE e orbita 540 km acima da superfície da Terra”, explica. De acordo com o professor, o olhar do Hubble não sofre as distorções da atmosfera, que desfoca a luz das estrelas. Isso impede que alguns comprimentos de onda relevantes cheguem ao solo. “Esse ponto de vista permite que o Hubble observe objetos e fenômenos astronômicos de forma mais consistente. Os detalhes são melhores do que os geralmente alcançáveis em observatórios terrestres. As câmeras e espectrógrafos sensíveis do telescópio podem ver objetos que datam de quando o universo tinha apenas três por cento de sua idade atual”, destaca.

O professor explica ainda que o Hubble foi projetado como um observatório destinado a explorar o universo. Até o momento, foram estudados mais de 40 mil objetos cósmicos. Odilon afirma que, embora o espelho do Hubble seja menor do que os encontrados nos maiores observatórios terrestres, sua posição oferece clareza. “À medida que o telescópio orbita a Terra, seu espelho coleta luz do cosmos. Assim, as imagens e espectros são de altíssima resolução. Para algumas das imagens mais profundas, o telescópio olhou o mesmo ponto no céu por dias, tentando capturar o máximo possível de brilho do universo distante”, completa.

Na visão da professora mestre em Física, Scheila Vicenzi, o lançamento do Hubble foi um marco na humanidade. “O que se tinha até o momento eram dados calculados matematicamente, dados teóricos. Não se tinha muita observação a longas distâncias e, portanto, não havia a confirmação de muitas teorias. Então, esse telescópio recolheu dados e imagens que ajudaram cientistas a entenderem o universo. Em outras palavras, o Hubble permitiu a mudança de perspectivas e ideias sobre o universo”, explica a professora.

CONTRIBUIÇÕES PARA A CIÊNCIA

BURACOS NEGROS

Scheila pontua algumas teorias que puderam ser confirmadas com o Hubble. Um exemplo são os buracos negros, que até então, eram apenas teoria matemática. “Para se ter uma ideia, em 1940, já se tinha cálculos sobre buracos negros, já se sabia que existiam, só que, depois que lançaram o Hubble é que conseguiram, então, detectar o buraco negro. E, além disso, conseguiram confirmar que o centro de uma galáxia é um buraco negro. Essa é uma das coisas que, na época, foram muito incríveis” destaca.

Em 1994, o Hubble conseguiu capturar um grande concentração de estrelas, gás e poeira. Através de imagens de corpos celestes pode-se detectar que essa grande movimentação era, na verdade, buracos negros supermassivos. Os buracos negros supermassivos têm extrema magnitude. Sua massa é bilhões de vezes superior à do nosso Sol. Eles são capazes de capturar qualquer coisa que passa perto deles, inclusive a luz. Por causa disso, esses objetos não podem ser observados diretamente. Então, graças ao Hubble, cientistas conseguiram dimensionar a relevância dos fenômenos, apenas mapeando os buracos negros de longe.

Telescópio Hubble captura buraco negro de massa intermediária

Burraco negro de massa intermediária capturado pelo Hubble (Foto: Hubble/NASA)

Além dos buracos negros e das diversas observações e descobertas do Hubble, algo que marcou o estudo da Astronomia foi a medição das estrelas gigantes. Ela pôde ser feita com uma precisão inédita e ajudou a refinar a estimativa da idade do universo. As imagens do Hubble revelaram galáxias há bilhões de anos-luz de distância. Estes dados têm gerado e mantido uma série de trabalhos científicos que se mantêm até hoje.

ENERGIA ESCURA

Scheila também destaca que o Hubble permitiu o estudo da energia escura. “Foi a partir de fotos de estrelas e galáxias que estão há bilhões de anos-luz que se conseguiu informação da massa escura. E a energia escura é um mistério muito grande ainda, então foi um grande passo conseguir essa imagem e esses dados através do Hubble”, afirma a professora. Ela explica que apenas 15% do que é visto no universo são planetas e estrelas e o restante é matéria escura, ou seja, é desconhecido.

QUASARES

No mesmo sentido, a professora Thaísa Bergmann ressalta que o Hubble revelou de forma clara os quasares, por meio de imagens das galáxias hospedeiras. Além disso, o telescópio permitiu um censo do número total de galáxias do universo visível, assim como a determinação da sua taxa de expansão. “O Hubble também revelou de forma muito nítida uma infinidade de lentes gravitacionais, um dos maiores tributos à relatividade geral de Einstein, mostrando como a luz de galáxias distantes se curva ao passar por concentrações de massa no seu caminho até nós. Isso nos permitiu verificar o movimento de expansão de um remanescente de supernova, como a Nebulosa do Caranguejo”, pontua a pesquisadora.

Quasares foram registrados pelo Hubble ejetando matéria como tsunamis

Hubble registra quasares ejetando matéria como tsunamis (Foto: Hubble/NASA)

O BRASIL NO ESPAÇO

FUTURO DO HUBBLE É PROMISSOR

De acordo com o professor Odilon, as descobertas estão longe de acabar. “Agora, no auge de suas capacidades, o Hubble continua a expandir os limites do nosso conhecimento cósmico. Isso pois, mesmo com um histórico de descobertas sem paralelo, ainda há revelações por vir. A cada novo mistério descoberto, mais o Hubble abre nossos olhos para as maravilhas dos confins do universo.” As nebulosas), por exemplo, são analisadas profundamente pelo telescópio. Além de serem fundamentais para entender a formação do universo, também são, segundo o professor, exemplos de “maravilhas” do universo. Esse é o caso da Nebulosa da Águia, fotografada pelo Hubble na icônica Pilares da Criação.

Uma das mais icônicas imagens já capturadas pelo Hubble, os “Pilares da Criação”

Uma das mais icônicas imagens já capturadas pelo Hubble, os “Pilares da Criação” (Foto: Hubble/NASA)

HUBBLE INSPIRA DENTRO E FORA DA COMUNIDADE CIENTÍFICA

Na visão da professora Scheila Vicenzi, o Hubble foi responsável por popularizar a ciência no mundo. Além disso, foi capaz de despertar o interesse pelo espaço e pela astronomia em jovens e crianças. “Ele proporcionou imagens do nascimento até a morte de estrelas e o que a gente sabe hoje é pelas informações e pelas fotos que a gente conseguiu via Hubble. Foi possível catalogar estrelas, saber sobre os estágios da estrela e até, recentemente, o Hubble assistiu ao nascimento de uma estrela no quadrante NGC1313. Em 2016 ele identificou, mediu e confirmou a considerada galáxia mais longínqua do espaço e mais próxima do Big Bang. Ou seja, ele captou uma luz emitida há 13,40 mil milhões de anos”, esclarece.

Para a professora Thaisa Bergmann, o lançamento do telescópio foi, e ainda é, um marco transformador na relação entre sociedade e ciência. “O Hubble revolucionou a Astronomia, e em particular tornou-a mais popular, pois as imagens que fez do universo, por serem tão nítidas, mostrando detalhes nunca antes vistos, são irresistíveis e permitiram grande avanços científicos”, explica.

A bióloga Amanda Zanatta é amante da Astronomia, e tem o universo como objeto de fascínio desde a infância. “A curiosidade sempre foi minha aliada em tentar entender tudo o que estava acontecendo ao meu redor, pois sempre me perguntava: como é possível existir estrelas? Ou vivermos em um planeta? Ou simplesmente existirmos?”, relembra. Para ela, a geração atual é privilegiada, pois foi capaz de desenvolver tecnologias que auxiliam a responder essas e outras perguntas, além de trazer novos mistérios. “Telescópios como o Hubble nos levam a lugares inimagináveis, mostram caminhos até então desconhecidos, incitam a explorar, nos deixam mais perto da realidade cósmica e do nosso verdadeiro lugar no universo”, reflete.

Para ela, as imagens do espaço também são fonte de inspiração.  “Quando olhamos de uma perspectiva cósmica, somos imperceptíveis. Esta realidade pode abalar o nosso ego humano, mas também mostra que, na imensidão do universo quase inóspito, a vida é rara e frágil, sendo nosso dever protegê-la a todo custo. Como bióloga, o universo traz-me inspiração para que isso seja feito”, conclui.

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