Influência digital muda rotina gaúcha

Influência digital impulsiona educação e negócios, que apelam à tecnologia como alternativa para a continuidade de atividades durante a pandemia

Texto: Carolina Canton, Elisa Ambrosi e Thamires Bispo

Influência digital – Home office desponta como solução

Estudante Fernanda Carminatti assiste às aulas online no  horário equivalente às presenciais | Foto: Henrique Carminatti

 

Educação e economia são mais prejudicadas

O impacto da quarentena na rotina dos gaúchos reflete em vários setores, principalmente na educação e na economia. O Rio Grande do Sul tem mais de 9 mil instituições de ensino que tentam conciliar as aulas com o calendário previsto. Da mesma forma, o comércio e a indústria, que tiveram suas portas fechadas logo no início do isolamento, buscam evitar perdas. Para continuar desenvolvendo seus serviços, algumas empresas conseguiram adotar o modelo home office, mantendo os funcionários em casa, mas sem modificar a carga horária semanal. Entretanto, nem todos os setores conseguem aderir à influência digital. Salões de beleza são exemplo disso, na medida em que  que o contato físico com o cliente é indispensável.

O censo escolar de 2018, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep), aponta que o estado possui 1.503 escolas de Ensino Médio Regular. Todas essas instituições seguem o decreto estadual, sem aulas presencias. A estudante do 2º ano do Ensino Médio Fernanda Carminatti, do Colégio Farroupilha, de Porto Alegre, conta que desde o início da quarentena, sua instituição havia preparado aulas gravadas. “Tenho aulas online todas as manhãs durante a semana e durante as tardes em que teria turno inverso. Acredito que a compreensão da matéria esteja melhor, porque não temos distrações”, completa.

Fernanda  está satisfeita com o novo método de ensino digital, mas a realidade nas escolas públicas é diferente. O estudante do 3º ano João Lucas Rech, da EEEM Irmão Guerini, em Caxias do Sul, conta que, na sua escola, as aulas online não são possíveis. Para continuar o calendário, os professores enviam as tarefas para a turma por representantes de classe.

“Nos primeiros quinze dias da quarentena, recebemos conteúdo referente ao que recém tínhamos aprendido. Em abril, passaram mais atividades, mas era o conteúdo que veríamos quando voltássemos para aula. Se temos dúvidas, a gente fala no grupo da turma, pelo WhatsApp, e a representante entra em contato com a professora ou com a vice-diretora”, conta.

Bandeira vermelha e mudança de planos

A Secretaria Municipal da Educação de Caxias do Sul (Smed), havia previsto que em maio as aulas ocorreriam somente no modo digital. A Smed é responsável por um portal do estudante e também destaca plataformas de suporte, como salas online e e-mail. A previsão foi acertada, pois no final da primeira quinzena de junho o nordeste da Serra gaúcha entrou na bandeira vermelha, alerta de alto nível de propagação do vírus.

O ensino público no estado apresenta deficit há algum tempo, registrando a maior taxa de reprovação no Ensino Médio do País, em 2019. De acordo com o Inep, a cada 100 alunos de escolas públicas estaduais, 22 não passam de ano. As consequências desse quadro, somadas à crise de uma pandemia, geram ainda mais dificuldades para os alunos, principalmente, os que, nesse ano, realizariam provas de vestibular e Enem.“

Eu tenho certeza que tudo o que eles passaram pra nós até agora, não teriam passado na aula presencial. Tivemos um bom tempo de aula e tem gente que não tem duas folhas no caderno preenchidas. Creio que não deveriam passar tanto trabalho de casa. Eles poderiam fazer uma forma de interação para tirarmos algum proveito disso. Tem plataforma digital que não é paga e que daria para fazer as atividades”, afirma João Lucas, talvez sem dar-se conta de que muitos colegas podem não ter computador ou internet em casa.

Influência digital no Ensino Superior

Na Universidade Federal de Santa Maria, as aulas ocorrem por uma plataforma que já era suporte para as disciplinas. Bruno Luiz Signori é estudante de Letras e relata que sente bastante diferença com o novo sistema. “Mesmo tendo aula digital, a interação sempre fica prejudicada. Então, estamos aprendendo ou estou aprendendo? Eu diria que sim, tenho sempre muitas atividades, todos os dias estudando. Mas no fim de tudo, eu vou ter absorvido, no comparativo com as condições normais, muito menos”, afirma.

Após um mês e meio de isolamento social, o governo do Estado flexibilizou a abertura do comércio e outras atividades consideradas essenciais, mesmo com o crescimento do número de casos de Covid-19. Sobre uma possível volta às aulas, as opiniões sobre os riscos e decisões de participar presencialmente divergem. João Lucas afirma que não voltaria, mesmo sentindo saudade das aulas. “Se as aulas voltassem, a minha escola não teria estrutura para isso, porque é bem pequena. Eu não colocaria a minha vida em risco. Tenho pessoas na minha família que são do grupo de risco e não quero expor eles a isso”, justifica.

Já Bruno afirma que mesmo condicionado à ideia do afastamento social, daria um jeito de retornar. “Eu acharia um grande erro que as aulas retornassem, mas se fosse o caso, e eu tivesse a garantia de que a minha ausência fosse me prejudicar, eu frequentaria essas aulas. O que é assustador se pensar que tenho turma com 50 pessoas. Não tem o espaço necessário”, conclui.

HOME OFFICE JÁ ERA OPÇÃO ANTES DA QUARENTENA

Áudio Estudante Bruno Signori

Frispit · Bruno Signori – Pandemia Na Educação

No trabalho, influência digital é mais desafiadora

Na perspectiva dos negócios, a pandemia também separa opiniões. Segundo pesquisa do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), mais de 600 mil empresas fecharam devido à Covid-19. A pesquisa também mostra que 31% das empresas brasileiras mudaram a forma de trabalhar. Desse número, 42% estão trabalhando apenas com entregas e 22% aderiram ao home office.

A proprietária de um salão de beleza em Bento Gonçalves, Cristiane Brito é uma das microempresárias que teve seu negócio afetado. Ela considera que a paralisação teve impacto muito grande na parte financeira do seu negócio, pois seu ramo é incompatível com o meio digital. “Quando voltei a abrir o salão, apenas 50% das clientes agendadas anteriormente remarcaram seus horários. Muitas são do grupo de risco ou têm alguém da família que é. Outras acreditam que não existe necessidade de vir ao salão. Então, foi um impacto bem negativo”, afirma a cabeleireira.

De acordo com o Sebrae, 77% dos negócios no estado foram afetados negativamente, 16% positivamente e apenas 7% não foram afetados. Apesar de fazer parte das pequenas empresas impactadas, Cristiane acredita que o isolamento é a melhor forma de se proteger. “No período em que poderíamos ter ficado em casa, cada um pensou no seu próprio benefício e decidiu abrir. Só que agora eles estão percebendo que mesmo abrindo, não tem movimento. O resultado, na verdade, foi o enquadramento da região nordeste da Serra gaúcha na bandeira vermelha de risco de disseminação do vírus. Eu acho que deveria ficar aberto apenas aquilo que é essencial”, relata.

Com a pandemia, os pequenos sofrem mais

A proprietária da escola de dança Rakaça, Michele Trentin, também sofreu ao fechar sua escola após o decreto estadual. Ela afirma que as aulas haviam voltado recentemente, pois muitas de suas alunas estavam de férias em janeiro e fevereiro. “Em março, quando todas retornam, conseguimos trabalhar meio mês e já tivemos que fechar.

O impacto foi bem grande devido ao fato de estarmos começando um ano letivo. Além disso, dança é arte, tem um trabalho artístico que nós montamos,  o envolvimento das alunas, tudo interrompido. Há que considerar, também,  a parte financeira. Enquanto a escola estiver fechada, as alunas não pagam mensalidade. Então não há lucro nem rendimento”, explica.

Contudo, Michele foi uma das empresárias que conseguiu continuar trabalhando via plataforma digital. Ela criou o projeto Dance em Casa, um pacote de cinco aulas gravadas que suas alunas podem comprar e continuar a praticar a dança em casa. “Essas aulas conquistaram um público muito legal, pessoas engajadas em participar. Algumas de minhas alunas aderiram e outras não, o que elas gostam é de estar presente fisicamente na escola”, pontua.

Mesmo conseguindo dar suas aulas virtualmente, a professora reitera que uma aula digital nunca vai estar à altura de uma presencial. “Pelo virtual, a gente não consegue enxergar o aluno para poder fazer as correções. No meu projeto, a vantagem para as alunas é poder acessar o link quando elas quiserem e repetir a aula. Porém, no lado do professor, não é possível ver como elas estão dançando, então não recebem o feedback”, conclui.

 

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